A arte da Concentração

Parte 1: Introdução

Quem duvida que existe um problema de atenção nos dias de hoje? Muitas são as situações em que lemos uma frase simples e, segundos depois, já a esquecemos. Ou então nos dispomos a fazer alguma atividade importante, seja do ponto de vista profissional, seja por vontade própria, mas, decorridos poucos minutos de dedicação à tarefa, já estamos remexendo no celular, ligando a televisão ou até mesmo prestando a atenção nos pássaros da rua. Qualquer coisa, menos nos chatearmos com o que tem de ser feito!

Em grande medida – e isso é coisa bem evidente – trata-se de um problema de vontade. Refiro-me à capacidade que os psicólogos, ao menos os antigos, definiam como a tendência ao bem racionalmente distinguido, a qual subentende uma adesão firme a esse bem. Essa adesão firme é a coisa que muitas vezes sentimos faltar. Até porque o treino da vontade não faz parte da educação atual. Ao contrário. E esse é, por óbvio, um dos problemas, pois o que se prega por aí é um abandono aos desejos desordenados da alma que, como o próprio nome diz, põe-nos em um estado constante de desordem.

Ao nos darmos conta do problema, contudo, a remédio mais imediato é tentarmos impor à mente um controle que, por ser afoito, é ineficaz, e que, por outro lado, talvez nem seja alcançável. Qualquer coisa que salte do oito para o oitenta, ignorando os passos intermediários, tende a não lograr, de pronto, resultados, e isso é esperado. Ainda mais se tentamos impor à alma um controle tirânico. É aí que muitos caem e não levantam; e, ou desistem, ou adotam uma postura rígida de pedra, não raro farisaica.

Isso acontece porque, também nessas questões de vontade e de concentração, influi a temperança, que é a virtude que encontra a medida de cada ação humana. Em outras palavras, temos de saber o que podemos e o que devemos controlar em nossas mentes, e o que devemos deixar agir de forma natural, para que não pequemos nem por exagero nem por insuficiência. Assim atingiremos o grau certo de concentração, o qual é o trabalho de anos, como tudo aquilo que vale a pena ser buscado.

Parte 2: O que é concentração?

Começamos a investigar o fenômeno da concentração.

No cerne da palavra “concentração” está o conceito de centro. E a palavra tem um parentesco com a ideia de círculos concêntricos. Ou seja, não apenas fala-se de uma “centração”, de busca por um centro, mas que esse centro mesmo possui como que reverberações em outros níveis, por assim dizer.

Mas a busca, ao menos analogicamente, é por um centro. Entendemos o que isso quer dizer; volta e meia falamos que precisamos estar mais centrados na vida, ou que fulano é uma pessoa centrada. Trocando em miúdos, quer dizer algo como: fulano é uma pessoa séria. “Sério” também é uma ótima palavra, pois advém da palavra “ser”. Uma pessoa séria é uma pessoa que está no ser, e não apenas prestando a atenção em acidentes que deleitam. Assim, estar centrado é estar no ser.

 Mas, bem, tragamos o argumento de volta dessas especulações etimológicas para algo mais palpável.

O que é, pois, esse estar centrado? É ter escolhido fazer alguma coisa e poder perseverar nessa atividade apesar dos muitos apelos que recebemos, seja de fora, seja do nosso próprio ser interior, a que façamos outras coisas, em geral mais apetecíveis.

O que é que, então, nos tira a concentração? Podemos dizer que, em geral, são os nossos desejos desordenados. Desde sempre os grandes sábios e mesmo a sabedoria popular têm alertado para o perigo dos desejos.

Os desejos advêm de nossa natureza animal – ou, se preferirem, da natureza que dividimos com os animais. Eles nascem de percebermos que algumas coisas, no mundo, causam-nos prazer e conforto. Assim, ficar na rede o dia inteiro é algo que apela aos nossos sentidos e, muitas vezes, à imaginação também. Escrever um longo relatório para o trabalho já não nos causa essa impressão. Para comprar a rede e termos algum tempo de sobra para nela deitarmos, porém, precisamos fazer o relatório ou algo análogo a ele. Esse é o dilema — descrito, é claro, de forma simplificada – que vivemos. Os desejos mal ordenados são, pois, a causa da má concentração. Podemos dizer que é a luta da busca animal pelo prazer contra a realidade. A captação da realidade é função do intelecto e da razão.   

Parte 3: As duas almas

No último texto, falávamos do embate entre o movimento em busca das coisas prazerosas (e de fuga das dolorosas) e a realidade. Por que existe esse embate? Bem, como é simples de observar, desde que não se esteja totalmente dominado pela lógica do prazer, ninguém sobreviveria se apenas fizesse o que gosta. Quem tentasse seria encontrado afogado em um barril de hidromel. O primeiro passo, pois, para nos centrarmos é reconhecer isso e, pouco a pouco, ensinar a parte irracional da alma a respeitá-lo.

E já que tocamos no assunto, deixemos esclarecido: ainda que, sob certo aspecto, nossa alma seja um todo, existe, sob outros aspectos, nela divisões. Todas as tradições religiosas e filosóficas sempre afirmaram isso. É só na modernidade ocidental que a visão de que o homem seja um macaco com certas funções a mais, em grande medida ilusórias, vicejou em larga escala. No mínimo, todas tradições sempre reconheceram uma parte animal e irracional na alma, e uma parte puramente intelectual, que calha de ser o que nos distingue do resto do mundo animal.

A parte puramente animal sempre foi descrita como “passiva”, pois os desejos nos surgem sem que queiramos ou busquemos. Basta ver algo apetecível que, sem grande participação minha, aparece-me um impulso de admirá-lo ou obtê-lo. Para não perder tempo e energia, aí é que é preciso fazer um esforço por não olhar. Esforço esse que tende a não ser prazeroso.

Assim, com muita acuidade, os antigos sempre descreveram as pessoas que cedem muito aos desejos como pessoas passivas frente a vida, incapazes de opor resistência ao fluxo da natureza. Afinal, o homem não é apenas parte da natureza. Ele possui uma parte ativa – a intelectual – que faz com ele possua um desejo ativo, chamado de vontade, que discerne nos desejos aquilo que realmente é bom não só no curto, mas no médio e no longo prazo, tendo em conta critérios objetivos.

Esse discernimento, que só nós podemos fazer por nós mesmos em nossas vidas, é um segundo passo para nos centrarmos no ser. Só com isso passamos a ser ativos na vida, e deixamos de ser levados de arrasto por aquele rio de que Heráclito nos falou.

Parte 4: O hábito da razão

Muitas vezes confundimos o pensamento, isto é, essa voz em nossa mente, com a razão e o raciocínio. Porém, muitas vezes esses pensamentos são meros ecos dos nossos desejos, medos e sentimentos. Quanto mais desordenados formos, mais assim será. Por isso, quando pensamos “esse bolo está delicioso, quero comê-lo” o dia inteiro, é nosso desejoso glutão que fala, não a razão puramente humana.

Esta distinção é boa; entretanto, muitos tentam exercitar a razão humana e não conseguem. Por quê? Bem, os medievais, seguindo Aristóteles, falavam-nos do hábito. Um hábito é algo que se cria quando se repete diversas vezes a mesma ação, como o músico que ensaia até dominar os movimentos que geram determinada música. Precisamos, pois, criar o hábito de usar a razão. Até aí, tudo ainda parece claro.

Mas como criar o hábito da razão humana?

Um modo básico é estudar e buscar o conhecimento. Porém, até essas atividades, se feitas da forma errada, podem ser apenas reflexos automáticos de nossa alma passiva. Podemos fingir estudar apenas para passar o tempo, para ocupar a cabeça, sem pôr nenhuma substância real naquilo.  

Sim, é importante frisar isso: muito do que pensamos ser ações meritórias, como o estudo, pode ainda ser reflexo de desejos desordenados. Existe, pois, um estudo desordenado que não é o meramente bagunçado, mas o que não tende a um fim salutar e claro. Porém, a coisa piora.

Se estamos em estado de fluxo mental, geralmente não conseguimos refletir direito a respeito de nossas ações. Isso é um mau sinal. Como proceder nesses casos?   

Bem, para alguns poderá parecer estranho, mas a primeira providência é ter uma vida espiritual, de oração e demais práticas consagradas. E a razão é simples. A vida espiritual força-nos a deslocar a atenção para longe dos nossos próprios desejos. E fazer força tende a criar força. Há ainda, claro, a questão da ajuda sobrenatural.

Outro exercício salutar é o da meditação sem nenhum tema específico. Consiste ela em simplesmente aquietar-nos por alguns minutos no dia, focando a atenção nos pensamentos e desejos que surgem sem que façamos esforço. Esse tipo de meditação pode informar-nos muito a respeito do estado de nossa alma. A partir disso, poderemos vir a saber melhor o que realmente se passa naquele fundo confuso e passivo de que já falamos, e com isso tomaremos providências mais perspicazes no dia a dia, a fim de desenvolvermos o citado hábito da razão.

Parte 5: A substância da mente

Quando fazemos o exercício de meditar sem nenhum tema que foi sugerido, algo ainda fica ativo em nós: a atenção. Estamos prestando atenção nos movimentos internos da alma que não dependem de nós.

De certa forma, a atenção é aquilo que nós possuímos, em se tratando da mente. É aquilo que controlamos positivamente. Alguns, talvez, dando um passo a mais, poderiam até dizer que é o que somos, mas não entraremos nessa polêmica aqui.

Quando estamos atentos, podemos dizer que estamos concentrados, ainda que seja passageiro. Isso acontece, por exemplo, de modo quase automático em situações de perigo. Nessas situações, ficamos hiperatentos a tudo que se passa no ambiente. É interessante notar que esse estado de atenção mortalmente focada nos parece algo mui desejável e, quando ele se esvai, temos a impressão de que naqueles momentos é que estávamos de fato vivos.

Em situações normais, porém, a atenção tende a divagar, devido aos vários estímulos que ativam os apetites sensíveis. A arte da concentração, portanto, consiste em tomar as rédeas de nossa atenção, para que não divague.

Entretanto, temos de considerar o seguinte: não é possível, ao menos em termos humanos, extirpar a parte passiva e desiderativa da alma. Bolo é bom e continuará sendo, mesmo se tivermos uma alma bem ordenada. Então, aqui, precisamos ter clareza: não destruiremos, em nós, a percepção de que o bolo é delicioso. O que temos de fazer é realocar a importância das coisas deliciosas em nossas vidas, e passar a dar alimento às partes mais nobres da alma, para que não morram de inanição.

E aqui que retornamos àquele tema inicial da temperança. Temperança, podemos dizer, é botar as coisas nos seus devidos lugares na alma. Botar as coisas no eixo. Por isso é que uma vida de oração se torna tão importante. Porque, na ordem das coisas, a vida espiritual vem antes e, em muitos sentidos, ordena o restante. É o significado da palavra metanoia, no Evangelho, traduzida para o português como conversão – conversão à única coisa necessária. E faremos isso dando-lhe cada vez mais atenção.

Parte 6: Moldando os hábitos

Não é algo muito simpático, ao menos no círculo mais amplo da sociedade, dizer que sem vida espiritual o homem não consegue ordenar a alma. Porém, é a verdade. Mesmo as pessoas que têm vontade de ferro acabam tendo algumas áreas da vida mal cuidadas. Nem é necessário dizer que a vida espiritual precisa, ela também, ser ordenada pelas técnicas e disciplinas da religião.

Mas a questão espiritual não é nosso foco aqui, pois a Igreja está aí para isso. No entanto, não seria possível falar de concentração real e duradoura sem mencionar esse aspecto. Para que não digam que apenas falamos de forma teórica, temos que ver agora algumas dicas práticas para temperar a alma.

Assim, primeiro devemos olhar para os casos extremos. Há quem seja muito ativo, há quem seja muito passivo em certas habilidades básicas, sem as quais nem mesmo estamos instalados na realidade. E sem uma adequação mínima, jamais conseguiremos executar as tarefas mais importantes a que nos propomos. Nesses casos, em geral, é preciso aplicar remédios menos doces. Um exemplo: se a pessoa tem pouco traquejo social, por pelo menos um ano ela se forçará a expor-se a situações que requeiram interação humana, como por exemplo puxar conversa com pessoas no shopping, em parques, festas etc. No começo será doloroso, mas é assim mesmo. E o inverso também é verdadeiro, pois ser intrometido, em geral, não é virtude.

Isso vale para a vida de estudos. Se a pessoa está sempre protelando o início da leitura, que pegue o livro e leia, mesmo entendendo pouco. Começa-se sempre de baixo, isto é, da ignorância. Se a pessoa vive interrompendo leituras necessárias e pulando para outros livros, que se force a ler até o fim, nem que leve seis meses.

Se a pessoa é desordenada, busque a ordem. Se é muito aferrada a hábitos, que os suavize um pouco. Se é comilona, introduza o jejum em sua agenda. Aos poucos, mas com constância, contornando os percalços com doçura de ânimo.

Existem motivos por que se diz que a virtude está no justo meio; é um fato, por exemplo, que não controlamos o mundo nem todos os aspectos de nossa vida. Assim, tanto o controle absoluto quanto o total relaxamento não são atitudes realistas. O justo meio é o sinal de que a razão está operando, pois a natureza, em geral, no puxará para um do extremos. Embora, é claro, não se possa confundir o justo meio com ficar em cima do muro em matérias graves. Há casos em que o justo é se posicionar com resolução a favor daquilo que, para os mornos, é uma posição radical. Tudo isso pode parecer complicado – e muitas vezes é. Não nos deixemos abalar, porém, pois em nenhum momento foi-nos dito que a condição humana é coisa simples e descomplicada. 

Parte 7: A Atenção Desatenta

Temperança quer dizer mistura apropriada. Poderíamos chamar também de a ciência da dosagem. Outra analogia cabível é com a da administração, que podemos definir como a boa gestão de bens escassos em uma dada situação. σωφροσῠ́νη, o nome grego da virtude, significa em sua raiz “sanidade mental”; ele indica o resultado último da sua prática.

Também encontramos um parentesco de analogia com o ato de afinar um instrumento musical. Se apertamos muito a corda, ela estoura; se deixamos muito solta, produz um som murcho. Assim, a virtude da coragem; se diante de uma situação temível afastamo-nos e fugimos, fracassamos; igualmente, se nos lançamos em direção a ela sem nem pensar e medir o que é possível fazer. No primeiro caso, somos covardes; no segundo, temerários.

Tudo isso é bem compreensível; é na hora da ação que a coisa fica preta. Com relação ao estudo, temos de criar o hábito de exercitar a razão, o qual não pode confundir-se com o ato de correr os olhos por cima de muitas palavras, sem atinar nos conceitos e ideias que elas carregam. Temos, pois, de desenvolver o hábito da leitura, da meditação e da contemplação, como ensina Hugo de São Vítor. Só todos os três, juntos, constituem a vida intelectual. Observemo-nos, sondemos nossas almas: estamos buscando aprender e aplicar as três atividades? E, depois: estamos fazendo isso na medida correta, respeitando nossas capacidades atuais de assimilar conteúdo intelectual?

Muitas técnicas, hábitos e vivências são necessárias para uma vida intelectual plena. Tantas, que não podemos nem de longe elencar aqui. Faz parte da jornada descobri-las, porque variam de pessoa a pessoa. O certo é que precisamos buscar essa temperança, essa sanidade mental. Ela é a nossa meta e, ao mesmo tempo, o meio de adquiri-la. Mens sana in corpore sano – eis um ideal dos antigos, pelo que nos dizem os relatos históricos. A vida intelectual é, pois, também um afã pela sanidade.

A concentração nos estudos será, assim, resultado da busca, nunca adquirida por um passe de mágica. Também ela deve ser dosada, sendo a verdadeira atenção um pouco desatenta, uma vez que tem os olhos no fim, enquanto trabalha com os meios. É aquilo que dissemos no início: não se deve almejar o controle completo da alma – pois seria inclusive negar a agência da divindade nela. Busquemos o justo meio.

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