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Sobre a técnica de pesquisa bibliográfica

Por Mário Lucas Carbonera

É comum recebermos perguntas sobre livros nos stories do nosso Instagram. Elas vão desde solicitações de listas para se iniciar no mundo da leitura até questões sobre as melhores edições e traduções. Em muitos casos são perguntas pertinentes, sobre as quais temos algo a dizer. No entanto, há também muitas outras que nos pedem coisas que beiram o impossível — como, por exemplo, que informemos qual a obra ideal de determinado autor para se começar a lê-lo. Essas perguntas têm algo em comum: revelam, dentre outras coisas, que os perguntadores não possuem uma técnica muito importante, bem como elementar da vida de estudos, que é técnica da pesquisa das fontes.

Não temos a menor pretensão de sondar a alma de quem as formula, mas é preciso prevenir que muitas delas exalam certo odor de preguiça intelectual; quando o caso for esse, a única saída é deixar de ser besta e pôr logo as mãos à obra!

Mas, se o problema for técnico, este texto poderá ajudar a mitigá-lo.

É um fato que hoje vivemos uma época de ouro no que tange ao acesso a obras clássicas sobre qualquer assunto imaginável. Na internet, temos uma enormidade de livros disponíveis em formato digitalizado ou transcrito, todos à distância de poucos cliques. Isso cria o problema do embarras du choix: o problema de termos de triar as obras que nos sejam relevantes do meio de um mar de escritos de importância menor. Em outras palavras, um problema de abundância, não de escassez. Para termos bem marcado isso em nossa memória, basta-nos lembrar que, na Idade Média, não era habitual alguém possuir sequer um livro. Livros eram artigos de luxo, pois necessitavam de muito espaço para serem acomodados, e porque cada exemplar tinha que ser copiado à mão, palavra por palavra. Assim, para terem contato com uma obra, aspirantes a sábios em geral tinham que caminhar quilômetros até monastérios, escolas catedrais ou universidades, locais os quais comportavam o luxo que era uma biblioteca. A despeito disso, muitos dos maiores sábios da humanidade surgiram nesse período.

Hoje em dia, temos milhares de livros conosco em nossos celulares. E lemos pouco. E de forma fragmentada, começando uma nova obra sem ter terminado a anterior. Bem, esse é um problema de concentração e disciplina de que não vamos tratar por ora. Nosso foco é o seguinte: se estamos em contato direto com tanta informação, por que tantas pessoas se sentem perdidas, sem saber por onde começar, nem que traduções e edições adquirir?

Em alguma medida, isso se deve à preguiça intelectual já mencionada. Por outro lado, muitos se sentem genuinamente intimidados diante de tantas opções, porque nunca foram ensinados a navegar nesse mar da cultura. 

Seguem-se, pois, algumas instruções e macetes para que os estudantes sérios sejam capazes alcançar autonomia e encontrar seu próprio rumo na vida de estudos:

Comecemos do início:

1) Que autores devo ler?

De cara, espera-se que você saiba que assunto pretende estudar. Isso é o mínimo. Se nem isso você sabe, está nas trevas exteriores. Reze muito, faça um bom exame consciência, tome decisões e depois volte aqui. Porém, se você já sabe sobre que assunto quer ler, a primeira coisa a fazer é ter a lista dos autores que merecem leitura. Existem várias formas de fazer isso. A primeira é mais ou menos natural: se você tem interesse em algum assunto, já deve ter lido toda sorte de textos introdutórios aqui e ali e, ao fazê-lo, deparou-se com o nome de vários autores importantes e suas ideias principais, certo? Se sim, basta que você busque na memória esses nomes e complemente com uma breve pesquisa na internet. Para isso, a Wikipedia, de preferência a versão inglesa, é útil. Você consegue encontrar lá os principais autores em determinado assunto e até algo sobre suas ideias mais famosas.

Entretanto, se você pouco e nada sabe sobre o assunto, terá de separar um tempo justamente para ler textos introdutórios, em sites na internet, mas, idealmente, em livros de introdução ao assunto ou, então, em livros de história sobre o assunto (do tipo “História da Sociologia”). Procure, neste caso, na internet por esses livros em versões que já estejam em domínio público. Caso não encontre, talvez seja o caso de adquirir um em algum sebo virtual (ou em um real em sua cidade mesmo). Com relação à qualidade, não se preocupe tanto com isso. Livros de introdução não são um gênero repleto obras primas; se, por acaso houver uma obra prima de introdução ao campo do saber que você está pesquisando, é bem provável que você venha a saber lendo textos introdutórios por aí.

Por ora, é isso sobre a busca dos autores e das ideias mais célebres.

2) Por que obra começar a ler?

Já estamos acertados de que você sabe que assunto vai estudar (literatura, história, ciência, filosofia, direito etc.), já tem a lista dos autores e escolheu aquele pelo qual vai começar. Mas, veja bem, se ainda não sabe por qual autor começar, entenda: não há muitas alternativas. Você pode adotar o critério cronológico — do autor mais antigo ao mais recente — se for de índole mais organizada; o critério da importância — começando pela autor considerado o mais importante — se for índole mais direta; ou, ainda, pode escolher a abordagem pessoal e iniciar pelo que mais lhe chamou a atenção. A escolha dependerá de sua personalidade (a qual ninguém pode conhecer melhor que você mesmo). O mais importante, porém, é iniciar.

Com relação à obra pela qual começar, os mesmos critérios devem ser usados: cronológico, de importância ou pessoal. 

3) Qual edição acessar/adquirir: A questão da edição divide-se em dois aspectos, um estético, e outro, funcional.

Sem dúvida que um livro belo, com capa dura, diagramação bem trabalhada e tudo mais é mais desejável que um grosseiramente produzido. No entanto, devemos ter sempre em mente — e é sempre mesmo — que o essencial em um livro é o texto. Os demais aspectos são acidentais. Eles podem melhorar nossa interação com o texto, mas apenas isso. 

O aspecto funcional diz respeito à fonte usada, seu tamanho etc, que impacta na legibilidade; à capa dura enquanto mais fácil de manusear, à qualidade das folhas, com relação à durabilidade; à diagramação, que impacta no espaço para escrever comentários marginais. E por aí vai. Tudo isso tem sua quantia de importância, mas ainda não é o essencial. Na falta de uma edição boa, compre-se a má. Quem busca avidamente o conteúdo de um texto, sem outra alternativa, fará pouco caso se precisar decifrá-lo em fonte ruim, pequena e borrada.

4) Por fim, um quesito que tem mais importância, pois diz respeito diretamente ao texto: a tradução.

Traduttore, traditore, reza um adágio italiano. A função de tradutor é inglória. Por isso mesmo, vale a pena não esperar milagres. Trata-se de ofício utilitário, ao qual se apela por falta de melhor opção. Todo este preâmbulo é para dizer que a solução ideal para o problema das traduções ruins ainda é o mesmo de sempre: aprender a língua original. Claro, sabemos, nem todos têm tempo. Aí a segunda opção: ir às traduções.

A primeira prevenção, portanto, para se avaliar uma tradução — e aqui não há choro nem vela a respeito de falta tempo — é saber decentemente português. Diversos estudantes questionam sobre a melhor tradução de determinado texto, mas a questão que se impõe, antes de tudo, é: você domina o português bem o bastante para fazer diferença se a tradução é boa ou não? Já diz o provérbio que à noite todos os gatos são pardos. Ademais, existem os mais diversos critérios para se avaliar uma tradução: fidelidade ao original, respeito à língua para a qual se está traduzindo, capacidade de verter o estilo do autor, atualização para um linguajar atual etc.  

Em todo caso, algumas vezes a tradução sai boa. Quando isso acontece, em geral é porque um bom ou ótimo escritor se deu ao trabalho. Por exemplo, a tradução de Mário Quintana a “Ilusões Perdidas”, de Balzac, é excelente. Aqui, pois, já fica uma dica sobre traduções: prefira as feitas por grandes escritores. Machado de Assis e Fernando Pessoa ambos traduziram “The Raven”, de Edgar Allan Poe. Logo, essas devem ser as primeiras opções para a leitura desse poema.

Mas, nem sempre, e bem menos do que o seria conveniente, encontraremos traduções de grandes escritores. A segunda opção são os tradutores de ofício, por assim dizer. E os há em todos graus concebíveis de habilidade. Não vale a pena, nem seríamos capazes de fazer uma lista aqui. Cabe ao estudante, se assim achar útil, compilar uma para si. Deixamos apenas como exemplos de bons tradutores os nomes de Carlos Alberto Nunes para a Ilíada, a Odisseia e a Eneida; e o de Vasco Graça Moura para Dante.

Para finalizar esta seção, porém, repetimos algo que já dissemos algumas vezes: se não há nenhuma tradução decente à mão, use-se a indecente — senão, aguarde-se a ocasião de adquirir coisa melhor, ou de aprender a língua original da obra, que é sempre a solução ótima.

E, para finalizar o texto, umas últimas considerações. Todo estudante em nossos tempos precisa adquirir experiência e desembaraço na pesquisa bibliográfica na internet, encontrando com facilidade sites especializados nos autores do seu interesse, e os que disponibilizam as obras e traduções. Para alguns, será interessante fazer fichamento de obras, para outros, não. Muita coisa aqui varia de personalidade a personalidade. O mais relevante é que cada um descubra por si como otimizar suas ações de busca diante das grandes possibilidades que temos abertas para todos nós.

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