Humanismo e Idade Moderna –  Pe. Leonel Franca, SJ

Humanismo e Idade Moderna – Pe. Leonel Franca, SJ

Humanismo e Idade Moderna

Pe. Leonel Franca, SJ

Artigo para a Semana de Humanismo de 1947 publicado no livro

“A Formação da Personalidade”

Livraria Agir Editora 1958

 

I

Conceituar com precisão e propriedade, nas estreitezas de umas poucas páginas, o humanismo e analisar-lhe as relações com a civilização contemporânea na complexidade de seus problemas, é um desafio à prudência e quase à probidade intelectual. Esforçar-nos-emos, pelo menos, por balizar a região, indicando rumos e apontando direções que outros estudos e a reflexão individual poderão prolongar e aprofundar com proveito.

A própria noção de humanismo nestes últimos anos ampliou desmesuradamente as suas fronteiras. O termo é relativamente novo. Pierre de Nolhac reivindica-lhe a paternidade. O seu livro Petrarca e o Humanismo, publicado em 1892, introduziu o vocábulo na língua francesa com uma significação visivelmente ligada à cultura, ao espírito, a todo o movimento artístico e literário do Renascimento. Pouco a pouco, porém, o substantivo sonoro se foi desligando semanticamente da humanista e humanidades, termos mais antigos, em cuja parentela nascera, para aproximar-se mais de humano e homem e adquirir assim um sentido universal.

Nesta acepção, hoje corrente, poderíamos esboçar a tentativa de dar-lhe uma definição histórica. Encontraríamos o humanismo grego, que eles chamavam παιδεια, a formação do homem culto, do cidadão livre em oposição ao ignorante, apedeuta, ao escravo, ao bárbaro. O humanismo romano, a humanitas, com que os latinos traduziam ora o παιδεια , ora o φιλανθρωπια, e designavam as maneiras distintas e afáveis, a sociabilidade fina do homem superiormente educado in bonis artibus, que repetia o verso imortal de Terêncio: sou homem, nada de humano me é estranho. O humanismo medieval, o humanismo do Renascimento, o humanismo moderno. Defini-los por miúdo e caracterizá-los em seus elementos específicos é trabalho de erudição que deixamos aos historiadores da pedagogia.

 

Das descrições históricas poderemos subir a uma definição filosófica, de realizações concretas a uma essência pura. Visto desta eminência, o humanismo aparece-nos como a formação do homem, a estruturação de uma cultura, de acordo com o tipo ideal de humanidade. Seu alvo é desenvolver harmoniosamente no indivíduo todos os elementos essenciais que lhe integram a natureza e enriquecer organicamente a sociedade de todos os valores indispensáveis à plena e livre expansão dos que nela vivem.

A natureza humana é rica e complexa; é corpo e espírito; é tendência para a Verdade, para a Justiça e para a Beleza, é inteligência e imaginação, vontade e sentimento. Formar o homem todo é proporcionar-lhe a oportunidade de sua realização completa em todas estas direções: disciplinar-lhe a razão na conquista da verdade, afeiçoar-lhe a vontade à prática do bem e da virtude; é educar-lhe o coração e aprimorar-lhe o senso estético para amar e contemplar as coisas belas.

Mais. O homem é social, essencialmente social; viver em contato com os seus semelhantes não é para ele uma simples contingência, é a condição mesma da sua existência, desenvolvimento, atividade e progresso. Assistem-lhe, por isto, direitos e deveres em cada uma das sociedades em que nasceu ou se incorporou: a família, o Estado, a Igreja. Através destes grupos, participa de uma herança social, que lhe vem do passado e que, melhorada no seu presente, deverá transmitir o futuro.

Como se vê, o humanismo é uma concepção integral; visa desenvolver e exercer todas as virtualidades do homem: nenhuma é negada, descurada ou excluída. O verso de Terêncio, com todos os enriquecimentos que lhe trouxeram vinte séculos de civilização e de cristianismo, continua a ser a sua expressão autêntica: sou homem; nada humano me é estranho. De modo concreto e no seu ponto de vista nacional, também o exprimiu com felicidade um poeta alemão:

“Em mim, que sou um, há três: o grego, o cristão e o alemão;

As lutas da história, no interior da minha alma, eu as pelejo.

Oh pudera eu em cada idéia e em cada sentimento conciliar

Cultura, fé e natureza; seria o mais feliz dos homens.”

 

“Drei sind Einer in mir, der Hellene, der Christ und der Deutsche.

Ach, und die Kämpfe der Zeit kämpf’ ich in eignen Gemüt!

Könnt’ ich in jedem Gefühl sie versöhnen in jedem Gedanken,

Bildung, Glauben, Natur, wär’ ich ein seliger Mensch.”

(Emmanuel Geibel)

 

Sim, sobre ser uma concepção integral, o humanismo é uma concepção harmoniosa e harmonizadora do homem. Não só a cada um dos aspectos de sua natureza lhe dá o valor – os ingleses dizem a ênfase – que lhe é próprio, mas ainda e principalmente porque o habilita a refletir do modo mais completo, na harmonia do cosmos. Na formação humanista do homem há o que os psicólogos põem em relevo na inspiração criadora do artista: uma condensação poderosa de experiências múltiplas e várias na beleza simples e espontânea da unidade. Um ideal que se desprende aos poucos com toda a sua força de integração da multiplicidade dispersa. Ideal que não é o produto de uma criação subjetiva, fictícia e inconsciente, mas o reflexo, em cada plano da realidade, daquela harmonia que é, no universo criado, o sigilo da Inteligência Criadora. A educação humana já se não reduz a mobiliar de noções classificadas e rotuladas os compartimentos estanques da inteligência; é um crescimento orgânico e vital, em contato fecundo com este esplendor da ordem que é o cosmos. E uma adaptação, não-parcial a este ou àquele aspecto da realidade, mas “adaptação integral à totalidade do universo, passado e presente; material e espiritual; natural, humano e divino”. (Castilleno, A humane psychology of education) O homem assim formado conhece o seu lugar na hierarquia dos seres e dá um sentido pleno e verdadeiro à vida.

Uma noção caracteriza-se, antes de tudo, de modo positivo, pelo que é. Mas também o que não é ajuda a definir-lhe as fronteiras. A oposição dos contrastes pode ser luminosa.

A formação humanística opõe-se à formação enciclopédica com a sua frondosidade luxuriante de disciplinas; a formação laicista desterrando das influências escolares uma concepção da vida em que se possa inspirar um ideal e fundar uma hierarquia de valores; a formação técnica prematura inspiradora do sistema eletivo, numa palavra a formação, que, de modo geral, poderíamos chamar utilitária ou pragmatista, cujo fim é uma utilidade imediata, cuja preocupação principal é transmitir métodos e técnicas. O aluno estuda uma língua para que a possa falar corretamente; aprende ciências para habilitar-se, no menor tempo, como bom profissional. O mal deste utilitarismo está em que não é, de todo ponto falso, mas incompleto, parcial e mutilado. O princípio é, em parte, bom mas não é levado coerentemente às suas últimas consequências. A envenenar insidiosamente a atitude utilitária está, subjacente, mas ativamente inspiradora, uma concepção materialista da vida. Se o mundo em que vivemos não passa de uma pura matéria, força e riqueza são as únicas realidades que pesam e treinar os homens em hábitos de eficiência resumirá todas as preocupações do esforço educativo. Mas se o homem é espírito, inteligência que pode abstrair e elevar-se a um ideal de liberdade, capaz de modelar por este ideal o próprio eu, o significado e o alcance da educação ampliam-se em outras perspectivas. Para o primeiro plano das suas preocupações passam a integração da inteligência pela assimilação orgânica e harmoniosa da verdade, a formação de ideias dinamogênicas da ação pelo contato e contemplação da beleza, a aquisição laboriosa de hábitos de retidão e justiça. Com isto, não preconizamos uma fuga da realidade, uma evasão das exigências positivas da vida. Não; como dissemos há pouco, o utilitarismo peca por não ver que a maior utilidade está em facilitar o homem a expandir harmoniosamente a riqueza total de suas energias, do que limitar as suas capacidades nas fronteiras acanhadas de uma especialidade. Os objetivos da formação utilitária também nós os visamos, mas vamos além e queremos mais. O homem não é feliz se não for bom. Uma sociedade de malfeitores é um caos e um inferno em que se não pode viver. E a capacidade prática não é necessariamente garantia de bondade moral. Pelo contrário, a periculosidade de um homem mau cresce na proporção de sua eficiência técnica. A fim de integrar, portanto, o homem numa vida verdadeiramente humana cumpre cultivá-lo na totalidade harmônica das suas possibilidades. Como? Assimilando em cada disciplina o ideal que lhe é próprio não menos que os métodos e processos correspondentes. O método assegura a eficiência, mas o ideal dá a força, o impulso, o desejo. Métodos sem ideal atrofiam-se e morrem. O ideal, ao invés, trabalha e inspira a criação de métodos e processos. Importa, pois, em cada gênero de estudo, desprender os ideais intelectuais, morais e estéticos, capazes de comunicar ao nosso espírito vigor intelectual, moral e estético. Mais; importa ainda integrar numa unidade todos estes ideais. Soltos e desconexos e sem coordenação, perdem, em muito, da sua eficácia prática. Quando se integram os nossos motivos de ação, a força de um se exerce sobre todos os demais. O homem que sabe que Deus ama tudo o que é belo, tudo o que é bom, tudo o que é verdadeiro, inclinará todo o peso de sua vida religiosa em benefício de suas tarefas artísticas ou científicas”. (Castiello, p. 143) Eis o ideal do humanismo: compreensivo e amplo como o homem e o universo.

Enquanto o utilitarismo, parcial, limitado e estreito, não aspira senão a adaptar o homem à sua ambiência material, o humanismo rasga os horizontes e o coloca em cheio num mundo harmonioso, aberto a todas as exigências materiais, morais e religiosas de sua natureza una e complexa.

 

***

 

Esta caracterização do humanismo, simples e concisa, já é suficiente para situá-lo em face do mundo contemporâneo. Que a nossa civilização atravessa uma crise profunda já não é mister demonstrá-lo; é um lugar comum; basta ter olhos de ver e abri-los. Nem menos evidente é que esta crise prende as suas raízes mais profundas numa ruptura de equilíbrio humano. Já de há muito, com imagem viva, o disse Bergson: “Os utensílios do homem são um prolongamento do seu corpo… Ora, neste corpo que cresceu desmesuradamente, a alma ficou o que era, muito pequena para o encher, muito fraca para o governar… O corpo engrandecido está à espera de um suplemento da alma e a mecânica está a exigir uma mística”. Na linguagem que vínhamos usando, a técnica aumentou o poder do homem sobre a matéria, mas os valores espirituais do homem, que lhe condicionam a felicidade pessoal e o próprio convívio social não se desenvolveram na mesma cadência progressiva. Daí desequilíbrio, desintegração, multidão de valores sem hierarquia, em conflitos subversivos e, como conseqüência, a inquietude e a ansiedade das almas, a incompreensão e a hostilidade das nações.

Venha o humanismo salvador para pacificar indivíduos e povos. Restabeleça-se a hierarquia dos valores, o primado do homem e entraremos numa fase construtiva…

A missão do humanismo é unir, porque acentua os valores da natureza comum. O operário que materializa o seu trabalho, afasta-se do ideal. O cientista que, na sua especialização, se isola da vida, afasta-se do ideal. O operário, o camponês, o intelectual de qualquer raça ou cultura, que, partindo das mesmas realidades concretas e, através de disciplinas ou atividades diversas, se elevam ao mesmo ideal humano, aí se encontram, se compreendem, se prendem com vínculos de simpatia e comunhão. A convergência para este ideal comum de Verdade, de Bondade e de Beleza fraterniza os homens. A distinção de culturas, orientadas para uma finalidade comum, cessa de ser um princípio de contrastes e conflitos para transformar-se em elementos de harmonia e consonância na variedade e solidariedade enriquecedora. As diferenças artificiais ou de superfície esbatem-se na penumbra, ante esta comunhão profunda em que cada indivíduo ou cada povo contribui para o bem geral com todos os tesouros de perfeição humana, acumulados pela sua cultura pessoal ou nacional. Cria-se assim uma atmosfera espiritual, à qual todos, seguindo os impulsos profundos da própria natureza, se podem entregar de toda a alma. Intensifica-se a coesão pela cooperação. “O Humanismo é o bem comum; o traço de união dos espíritos mais diversos; é a unidade humana reconquistada pelo aprofundamento do ser que cada um traz em si; é uma comunhão universal neste absoluto por que ativamente aspira todo homem, como acabamento supremo de sua natureza”. (Charmot, L’Humanisme et l’humain)

 

II

Da eminência desta altura em que nos colocamos estudando o humanismo na pureza de sua essência, como formação do homem segundo um ideal humano, convém lançar um rápido olhar sobre as chamadas humanidades, espontânea e historicamente associadas ao problema do humanismo. Não vamos tão longe a ponto de identificar as duas noções, afirmando a necessidade imprescindível de uma cultura greco-latina para formar o homem. O humanismo impõe-se-nos como uma exigência indeclinável, os estudos clássicos não passam de uma técnica cultural, de um instrumento de primeiro valor para obter o resultado visado, mas cuja eficiência ou imprescindibilidade poderão ser discutidos. O humanismo é um fim; as humanidades, um meio.

Historicamente, é certo que os estudos clássicos constituíram até hoje o substratum constante da cultura ocidental. As mudanças ocorridas com o desenvolvimento da civilização moderna sugerem ou impõem uma nova orientação de rumos?

No Renascimento, o estudo do latim, como base da formação humanista, não se apresentou como uma opção, mas como o corolário inevitável da evolução histórica numa época imediatamente posterior à Idade Média que, bem ou mal, falava ainda a língua do Lácio. No século XV ou XVI o latim era de uma utilidade incontestável: ótimo instrumento de relações sociais, vinculo de unidade da civilização europeia e veículo de transmissão de toda cultura superior. Os professores da Península Ibérica, Coimbra e Salamanca, iam ensinar em Roma, Paris ou Praga, sem se preocupar do idioma em que se haviam de explicar aos seus ouvintes. Com 400 ou 500 palavras latinas um homem mediano podia tratar os seus negócios em toda a Europa.

Hoje são outras as condições da vida das inteligências. O latim já não é a língua internacional. Para nos entendermos, temos que resignar-nos a aprender três ou quatro das chamadas línguas universais. As literaturas modernas, por outro lado, enriqueceram-se nestes quatro séculos de obras-primas, que rivalizam em perfeição com as da antigüidade clássica. Ante esta mudança incontestável de perspectiva histórica, convém ainda insistir nos estudos dos velhos autores gregos e latinos, como instrumentos eficientes de formação humanista? Problema interessante e que a escassez do tempo não nos permite tocar senão muito por alto.

Diminuiu inegavelmente o valor pragmático das línguas clássicas, não tanto, porém, como à primeira vista pode parecer. Até o século XVI, aproximadamente, todas as fontes da cultura ocidental, no seu significado mais amplo, a compreender a religião, a filosofia, a arte, o direito, as ciências, as instituições sociais e políticas, foram escritas em grego e latim. Do século XVI até aos nossos dias grande número de pensadores, sábios e literatos escreveram ainda ou só em latim ou também em latim.

Na grande língua clássica compuseram algumas das suas melhores obras: Bacon, Descartes, Copérnico, Newton, Kepler, Leibniz, Grotius, Puffendorf, Althusius, Kant, Schopenhauer, Lineu, Lamarck, Bergson… Este fato maciço traz uma consequência de largo alcance: sem o conhecimento do latim é vedado o acesso às fontes primárias de toda a civilização ocidental. Nem é mister lembrar o cânon fundamental da metodologia científica: sem contato imediato com as fontes primárias na sua expressão original não há trabalho cientificamente verdadeiramente digno deste nome. Conclusão. Quem aspira a uma cultura realmente superior não pode ignorar as línguas que abrem a porta aos imensos repertórios de documentos de toda a nossa história.

Conserva, pois, o latim um valor de utilidade inquestionável. Mas não é este caráter pragmático que lhe assegurava um lugar dominante nos programas. No estudo das línguas clássicas os educadores do século XVI viam uma cultura. O conhecimento profundo dos gênios antigos oferecia-lhes a oportunidade de formar o homem, de transmitir um ideal de humanismo. Quam non sit homo qui literarum expers est! exclamava Erasmo. Um dos primeiros educadores jesuítas e que mais contribuíram para a elaboração da Ratio, saudava no conhecimento das boas letras o esplendor, o orçamento e a perfeição da natureza racional. Outro contemporâneo de Ledesma, o grande humanista Perpigniani via na razão e na palavra, intérprete da razão, as notas distintivas do homem: haec duo sunt quae nos homines reddunt? No próprio vocábulo, humanitas, humanidades, com que se denominava o curso secundário, buscava-se uma confirmação etimológica da convicção comum. O nome de humanidades, dizia Pontanus, foi dado a estes estudos porque transformam os que a eles se dedicam em “homens educados, afáveis, lhanos, acessíveis e tratáveis”. “Chamam-se humanidades esses estudos, escrevia por seu turno Possevino; que nos tornem, pois, mais homens”.

 

Tomar mais homem: eis o alvo a que mirava todo o trabalho educativo. A utilidade instrumental do latim era um subproduto do currículo; a formação do homem pelo desenvolvimento harmonioso de suas faculdades, o seu objetivo primordial. Para atingi-lo, a linguagem constitui o instrumento mais adequado e eficiente. Só pela palavra pode o educador atingir o espírito do aluno; só pela palavra pode o aluno manifestar o próprio espírito. Uma faculdade revela-se na ação, que lhe é própria e que, por isso, se pode chamar a sua expressão. A linguagem é a expressão do espírito, e, portanto, com a prova de sua existência, a medida do seu desenvolvimento. Mais. Quem se expressa, exercita a sua atividade mental, imagina, pensa, julga, raciocina, concatena ideias. Através da expressão pode, portanto, o professor excitar a atividade interior do estudante e medir-lhe e orientar-lhe o progresso. A linguagem é, pois, o instrumento natural da formação humana.

E a linguagem, não técnica ou científica, linguagem seca e fria, mas linguagem literária. A literatura é uma escola de idealismo e de espiritualidade; não só deste ou daquele ideal, mas de todos os ideais. Porque a literatura se ocupa com toda a vida, com o passado e o presente, com a natureza e o homem, enriquece-nos com seus tesouros de valores ideais em todos os campos do conhecimento. E a utilidade específica destes ideais é de participar dos atributos da beleza. Expressos em forma concreta, plástica, sensível, falam aos olhos, revelam a vida emotiva do artista e falam aos sentimentos do jovem… A obra literária seja ela um princípio de moral, uma verdade científica ou uma tese filosófica, porque revestida de beleza, empolga o homem todo, sentidos e imaginação, sentimentos e inteligência, e sobretudo cativa-lhe o amor. (Castiello)

“Ora, os grandes clássicos de Roma e Grécia, são, por unânime consenso, os maiores artistas da palavra. Pôr os jovens em contato com as suas obras-primas, proporciona-lhes, além de inúmeras outras vantagens, a influência educativa dos mestres mais autorizados.

Esta influência é altamente humanizadora. O trabalho do professor não se reduz a uma simples tradução ou leitura, é uma preleção que visa diretamente o estudo, a análise viva do modelo: as suas ideias, os seus sentimentos, os seus processos de expressão.

Segue-se o trabalho do aluno: a composição ou imitação. Depois de haver contemplado e admirado o modelo, o aluno esforça-se por assimilá-lo e reproduzi-lo. No silêncio do seu estudo repetirá depois os processos vitais percorridos pelo autor e analisados na preleção. Focaliza e ordena idéias, escolhe palavras, articula frases, balanceia períodos, dispõe os argumentos, num esforço altamente ativo e fecundo de rivalizar com o modelo entrevisto. Imitação um tanto servil nos primeiros tempos, a composição ganhará em originalidade e cunho pessoal na medida que o aluno for enriquecendo o seu patrimônio de ideias e os seus recursos de expressão.

Aí temos como se vai acordando e formando o homem todo com muito mais eficiência do que empregando o melhor de seu tempo em decorar dados positivos de geografia, de botânica ou de química.

Não basta ensinar os clássicos para dar uma formação humanista. Não é a presença do latim, quinhoado num currículo com maior ou menor número de aulas, que lhe dá jus a essa denominação. Há modo e modo de ensinar uma língua clássica. Poderíamos discriminá-los chamando-os de modo científico e de modo artístico.

O primeiro predomina no ensino universitário, o segundo deve caracterizar o curso humanista de formação secundária. A ciência é analítica; examina um texto, disseca-lhe as palavras, investiga-lhes a etimologia. A arte é sintética, orgânica e vital; na presença de uma obra-prima de expressão não começa por estendê-la numa mesa anatômica para esquadrinhar-lhe as entranhas, cadaverizando-a; mas extasia-se na sua presença, admira-a e, contemplando-a como um todo, recebe, intacta e formativa, toda a irradiação da sua harmonia.

A ciência é impessoal; interessam-lhe as coisas e os fatos na abstração fria e geral de sua objetividade. Ante uma página célebre da antiguidade, o cientista põe-se a colecionar formas gramaticais raras e interessantes, a esmerilhar informações históricas e geográficas, mitológicas e heráldicas, e organiza a sua colheita de verbetes, leva-os, satisfeito, como outros tantos fósseis, para o seu museu de antiguidades. A arte é pessoal; através da obra o artista põe-se em contato como o seu autor, com o ideal que lhe fulgiu no espírito criador de beleza. A Ilíada e a Eneida aos seus olhos, não são apenas, nem principalmente, um pretexto para escavações arqueológicas ou excursões de filologia comparada, são, antes de tudo, a expressão de uma alma humana, a realização de uma inspiração genial, a projeção movimentada através dum espírito privilegiado, de uma humanidade com todas as suas ideias e paixões, as suas grandezas e misérias. O homem de ciência estuda os autores para melhor conhecer a antiguidade; o homem de arte estuda a antiguidade para melhor interpretar e compreender os autores.

A ciência é, por natureza, teórica; a arte, essencialmente prática. Uma, visa conhecer; arquivar fatos, inferir leis. Outra aspira a realizar, produzir, criar beleza. O ensino de finalidade científica, na sua fase inicial de transmissão, apela muito para a memória; na sua fase superior de investigação e pesquisa aguça as faculdades de análise e raciocínio. O ensino como objetivo artístico interessa o homem todo e mobiliza-lhe todas as virtualidades criadoras.

Na verdadeira pedagogia, o curso secundário deve ser essencialmente humanista, pendente mais para a arte do que para a ciência. Sua finalidade não é transformar os adolescentes em pequeninas enciclopédias que depois de alguns anos já precisam ser reeditadas. Todo o esforço do educador deve concentrar-se, nesta fase da vida, em desenvolver as capacidades naturais do jovem, em ensinar-lhe a servir-se da imaginação, da inteligência e da razão para todos os misteres da vida. Os conhecimentos positivos de geografia ou de física poderão estar antiquados ao cabo de poucos lustros; o raciocínio seguro, o critério na apreciação dos homens, a capacidade de expressão exata, bela e enérgica de uma alma harmoniosamente desenvolvida representam aquisições humanas de valor perene.

Para a realização deste ideal de humanismo, as humanidades clássicas têm sido até hoje o instrumento de eficiência mais comprovada, e que ainda não foi substituído, porque não se pode apagar a história.

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